terça-feira, 12 de setembro de 2017

ENVIO AO CÉU

             Meu querido amigo Israel!

          Hoje lhe conto da emoção que reverbera no meu ser, com a leitura do Conto Olhos D´água de Conceição Evaristo. A emoção do seu texto caiu na minha emoção e desaguou em uma torrente caudalosa de lembranças que se mesclam e escoam nos rios de lágrimas que escorrem dos meus olhos e se transformam na trama da minha “escrivivência”, que veste a minha fragilidade, com o tecido da dor que me faz guerreira dos olhos molhados.
         Carrego em mim a doce lembrança de minha avó materna que me criou. Ela partiu cedo desta vida, mas me deixou de herança seu amor e os melhores fios que me tecem.  Quando menina, costumava cumprir um ritual de adoração: toda vez que ia à praia, trazia um baldinho com água do mar para banhá-la na nossa banheira. Eu aspergia as gotas da água do mar sobre o seu corpo como que reverenciando à Rainha das águas. Minhas referências sincretizadas, Oxum, Nossa Senhora da Conceição, minha avó as representava todas numa só carne. Na minha imaginação, essa água era benta e a imantava com a minha gratidão e desejo que vivesse para sempre!
        Muitas referências se refazem e dançam em volta de mim. Invoco uma prece feita por Maria Gadú a Deus do céu onde habitam você meu amigo Israel e minha avó: 
“Ó meu pai do céu, limpe tudo aí / Vai chegar a rainha / Precisando dormir/Quando ela chegar /Tu me faça um favor / Dê um manto a ela, que ela me benze aonde eu for

O fardo pesado que levas/Deságua na força que tens/ Teu lar é no reino divino / 
Limpinho cheirando a alecrim

        Sim Israel, a música e a escritura me servem de resistência para não sucumbir a tortura da dor da ausência. Me cubro com essa espécie de parangolé, colcha de retalhos formada dos pedaços de memória rebelde, que se recusam a ir embora. Trago em mim  esta rebelião contra o mito freudiano de Édipo. Componho-me da ancestralidade das Deusas, mulheres que fizeram parte da minha vida e colorem minha pele de muitos tons.
Recuso-me a crescer! Quero manter a eterna criança que deseja poesia que me provoca e desafia. Pois, crescer é perder a poesia. Talvez por isso, nós adoecemos à medida que nos afastamos da infância e da poesia consequentemente. Através da poesia, desapego desse ser doentio, apático e repetitivo, apartado da dúvida e da criatividade. Questiono os podres poderes e não me encaixo nos moldes. Não sirvo a esses senhores, não sou escrava do sistema capitalista! Reciclo todas as representações e me reinvento, buscando novos caminhos coados do peso da culpa. Todas as mulheres encerram em si canções de rebelião que pendem para um lado ou outro das questões que marcam a nossa sociedade partida por clamores de liberdade. Estou possuída, incorporada da revolta no melhor sentido nietzschiano, preciso matar aquilo que me mata! Grito por todas as mulheres com a esquizofrenia militante, sou filha de uma feminista, da revolução contra a ditadura, da fome por justiça e igualdade!  Espero que esta saga feminina ancestral me inspire a levar avante o grito pela libertação das correntes. O peso das responsabilidades não me tira o ânimo. Alcanço a leveza através do amor que incinera a covardia.
        Meu caro amigo Israel, o conto de Conceição Evaristo desagua meus olhos que se sensibilizaram ao passearam pelo Quarto de Despejo de Carolina de Jesus. A realidade das mulheres que se repete no cotidiano de uma população que vive o preconceito em especial às mulheres negras e pobres como no relato da jornalista Bianca Santana do movimento Não me Khalo
        Israel, meu doce amigo-anjo judeu, daí das alturas onde você vive agora, pode ver o meu esforço para não esquecer das minhas origens. Trago em mim a fome de vida dos refugiados da inquisição, que alcançaram o exílio nas terras tupiniquins em busca da liberdade de professar as suas crenças. Por que se mata em nome de Deus? Não encontro resposta para essa iniquidade. Lembrar convoca a dubiedade do amargo remédio: o veneno, é também o antídoto. O que não me mata, me fortalece como falava Nietzsche.
       Respondo a você amigo Israel, se me fosse dada a possibilidade de voltar a viver, eu aceitaria de bom grado revistar todas as dores e delícias. “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes. Sou os muitos livros que li, as bênçãos, rezas, pajelanças, dívidas, dúvidas e dádivas que contraí. Sou feita de sustos, soluços, lágrimas, gargalhadas, bem-queiranças. Confesso que vivi, lembranças das andanças, muito mais das esperanças, divididas com quem convivi.

       Fique em paz meu amigo, mas com o rebuliço das reminiscências da minha escrivivência! 

Nathalia Leão Garcia
Rio de Janeiro, 12 de setembro de 2017 


Salvador Dalí

                               

quinta-feira, 29 de junho de 2017

REFLEXÕES SOBRE A VIOLÊNCIA

Escrevo agora pela necessidade de me pronunciar sobre os acontecimentos atordoantes que se desenrolaram nas dependências de nosso Colégio na noite do dia 27 nesta terça-feira. Com um sentimento de absoluta perplexidade, fomos todos golpeados por uma brutal irracionalidade e é muito duro constatar o quanto podemos ser regredidos em matéria de civilização! Dói muito essa sensação de incompreensível primitivismo, mas neste momento temos que refletir sobre a nossa parcela de conivência com o desrespeito e a intolerância que sinalizam o mal-estar que acomete a nossa sociedade doente! 

Não há nada que justifique as grosserias e faltas de respeito com o próximo,  porém vivemos momentos desafiantes em que nossos limites são esgarçados e nossas certezas despedaçadas. Impõe-se questionamentos que rondam a nossa condição de  seres civilizados. Aonde estão os nossos valores? O que nos torna humanos? Será que perdemos o rumo? Aonde erramos? Onde estão as respostas? Ir de encontro aos nossos princípios pode nos fornecer algum tipo de alento. O que nos torna vulneráveis talvez nos ajude a buscar compreensão e apoio seja uns nos outros, nas nossas famílias, na fé ou em algum religare que nos faça prosseguir nesta caminhada. 

Ontem estava conversando com o Professor Tobias e lembrei de suas palavras acalentadoras que comparam a sala de aula a uma espécie de templo em que somos envolvidos por uma aura tão elevada que nada de mal pode nos atingir.

Já são tão grandes os obstáculos que enfrentamos no cotidiano! Nossos dirigentes dão os piores exemplos de desonestidade e descaso com a população. Figuras de autoridade estão se desmoralizando. Os que deveriam nos proteger nos achacam. Porque sou professora estabeleçouma correlação com a decadência do Ensino no Brasil e com a situação da carreira de professor, sua desvalorização o que representa a crônica da morte anunciada. Receita de bolo: um país sem educação que não valoriza seus professores está fadado ao fracasso. Precisamos resgatar a esperança e a perspectiva de um futuro para os nossos jovens. É responsabilidade de cada um de nós!

Apelo a todos para que possamos nos elevar e povoar nossos pensamentos com o que temos de melhor: a arte do conhecimento, o ensino que é sagrado. Falo isso com todo o meu coração e com a convicção de que somos capazes de superar a barbárie e nos segurar na força das nossas mentes. Precisamos colher algum significado para esta crise. Não podemos sucumbir a selvageria! Eu os convoco para lutarmos juntos afim de superar os desafios. Defendo o que acredito e me ofereço para trabalharmos no resgate de nossa dignidade e para a construção de uma sociedade mais justa. Sim, depende de nós! Não vamos assistir ao enterro dos nossos sonhos, vamos empunhar as armas do bem e do amor! Precisamos entender que a convivência com nossos semelhantes requer aceitação e respeito. Que Deus nos ilumine e nos dê a sabedoria para encontrarmos a paz e a solidariedade!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

CONFISSÕES DE UMA REJUVENESCENTE


Na eminência dos 50 anos revigorada
Ainda tento colher minhas memórias reticentes
A desorganização do meu ser em desalinho esparramada
Colcha de retalhos de dores e amores remanescentes
Cobre a minha alma desnuda e despudorada.
Convenhamos, não é de bom tom exibir uma rebelde mente.

Meus olhos expressam o bom humor
Nunca me canso de me surpreender
O que tenho de melhor para espalhar, o amor.
Não tenho medo de morrer.
Vivo a vida como beija-flor.
Provo os sabores que aprouver.

Sou os muitos livros que li
As bênçãos, rezas, pajelanças.
Dívidas, dúvidas e dádivas que contraí.
Sou feita de sustos, soluços, lágrimas, gargalhadas, bem-queiranças.


Como Neruda, confesso que vivi
Lembranças das andanças
Muito mais das esperanças
Divididas com quem convivi.


Nathalia Leão Garcia

Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 2016.

The Golden Years - Balthus , 1945

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

DESALENTO

Brexit.
Não à paz com as FARC.
Brasil rumo ao baque.
Trumpe-se!

As urnas expressaram
Política e vingança
Perdemos a esperança
As pesquisas falharam
Todos os signos negaram
Poderes na balança
Valores se esvaem na dança
Populismo e radicalismo fecharam
Ódio e preconceito venceram

Guinada ao retrocesso machista
Vale a propaganda extremista
A ótica é egocentrista
A retórica é antagonista
O pensamento é alienista

Fim do ciclo Solar
Império do medo no ar.
A conta vai chegar
Saturno vai cobrar!


Nathalia Leão Garcia


Rio de Janeiro, 09 de novembro de 2016 


                                                     Edvard Munch - O Grito 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

GRÃO

Quem sou eu para perdoar?
Que atire a primeira pedra 
quem nunca pecou, errou, se equivocou.
Os afagos de alma vou trocar.
Trilhar o caminho do agora eu vou.
Rumo coado das frustrações e demais entulhos
que não tenho que carregar!

Não tive vontade contida.
Sou uma sobrevivente sem certeza.
Uma alma perdida,
nadando contra a correnteza 
em círculos na vida.
Após anos passados .
O que encontramos?  
nossos velhos medos revisitados.

A busca por respostas ainda me comove!
Reconheço os meus defeitos, 
numa tentativa de expurgo o que me move.
Admitir a tendência a mitomania 
que se vira contra mim de muitos jeitos, 
pois é compulsiva a fantasia!

Sou viciada em mitificar, fantasiar, 
me iludo e crio um universo paralelo!
Compulsivamente quebro a cara sem parar!

Apenas peço que não julgue meus caminhos tortuosos!
Minha humanidade não sobrevive as lentes de aumentos,
aos tribunais da inquisição impiedosos...
Sou uma coleção de idiossincrasias e tormentos,
miríades de sonhos e poeira cósmica de sentimentos.

Estou aprendendo a lidar com a solidão,
Tenho alguns amigos que atravessam os anos,
A distância e a dissonante opinião, 
A urgência das tarefas cotidianas esmagam nossos sonhos.
Mas não matam a minha fome de comunhão.

Nathalia Leão Garcia
Rio de Janeiro, 4 de outubro de 2016



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A FOME NOS OLHOS DO TIGRE

Cara como é difícil agradar! Tudo vira polêmica!  

Acompanhando as Olimpíadas Rio2016 que adoro, vi as reportagens sobre a Rafaela Silva judoca – Ouro Olímpico, já a acompanho e “tieto” desde 2012, me identifico muito com ela! Ela é carioca, vinda da comunidade Cidade de Deus e desde pequena é “casca grossa” reagindo aos tapas “ para se defender”. Tive uma infância e adolescência assim, nunca fui a “fofa”.  Minha mãe criou duas meninas para a briga, sempre me incentivava a encarar qualquer um maior, mais velho, menino, menina, sem medo e pronta para brigar!  Briguenta e questionadora, sempre adorei uma discussão e para me defender partia para cima! Isso me rendeu uma fama de “difícil”, os garotos tinham medo de mim, não era a popular, mas era respeitada, brigava com todo mundo que se punha no meu caminho.  Já na Escola Fundamental com 6 anos na Alfabetização já era uma lenda porque a magrelinha, tímida e pequenininha se meteu numa briga com um menino e duas meninas maiores por causa dos seus direitos! O garoto da minha turma achava que era “meu dono” porque era um amigo e eventualmente me dava presentes como borrachas, biscoitos ou desenhos e no dia em que aceitei um ratinho de isopor de outro colega o moleque achou desaforo e convocou um bando para me bater! Quando minha mãe chegou na escola estava encarrando a última das bandidas mirins da antiga 4ª. Série enorme! Minha mãe reclamou com a inspetora que respondeu: " - Eu não apartei porque a Nathalia está ganhando! Já derrubou um menino e outra menina maior! " Era feminista como a mamãe e defensora dos fracos e oprimidos!

Teve também a líder da turma facha marrom do Judô na antiga 5ª. Série que pus para fora da Escola Roma “na porrada” e na moral, porque jamais aceitei ser dominada! Brigávamos desde a antiga 3ª. Série no Catecismo e ela intimidava geral porque era lutadora de judô e mandona! Num dos embates, ela foi expulsa da Escola Roma porque jogou uma mesa em cima de mim, eu abaixei mas acabou atingindo uma garota da turma que era diabética e fez uma ferida enorme com sangue esguichando para todo o lado!

Levei esta filosofia para minha vida! Aprendi a canalizar a agressividade para lutar pelo que quero e pelo meu espaço!

Aprendi a respirar para não reagir violentamente, mas ainda não engulo desaforos! Fico rouca quando não consigo falar o que queria! A energia paralisa na garganta! Estou rouca há duas semanas porque engasguei com situações surreais que tive que encarar! Beleza! Estou em recesso nas aulas e a voz não está sendo tão exigida. Eu solto a voz cantando para os males espantar! Grito e torço nos jogos que acompanho ao vivo ou pela TV! A música e o esporte me salvam da loucura!


E vamos lá! Um leão por dia para matar! Sou aquariana e não desisto nunca de uma briga! 



                                      Eye of the tiger 

terça-feira, 12 de julho de 2016

BEM VINDO DE VOLTA FILHO!


Meu filho Giovanni Pastore partiu há quase 7 meses para o exterior em busca de experiências, melhoria do seu curriculum, estudar em uma Universidade na Europa e se virar como um cidadão do mundo sem pai nem mãe nem nona Italiana! Ele está voltando na quinta feira, dia 14 de julho com muitas histórias na bagagem, conquistou muitos amigos de vários países como o Naim Sedira com quem dividiu o alojamento na Universidade da Beira em Portugal. Também atravessou as suas fronteiras e a sua zona de conforto e lançou-se na aventura de encontrar as suas origens na Calábria onde vivem os parentes do seu pai Ric Pastore as famílias Marzullo e Pastore que o acolheram com tanto amor e carinho que me emocionam!  Em Porto cidade de Portugal foi acolhido pela família do primo querido Jomar Schrank!  Agradeço de todo o meu coração por receberem meu filho único amado!  Eternamente grata por aceitarem meu filho, agradeço à  toda essa gente maravilhosa que ajudou a embalar os sonhos do meu filhote! Orgulhosa e com muita saudade e expectativa aguardo meu filho com preces de bem aventurança e esperanças neste país que tanto nos preocupa pela falta de cuidado com seus cidadãos! Nos seus 21 anos de existência Giovanni trouxe luz para esse mundo e me fez acreditar que vale a pena acreditar no ser humano! Giovanni terá mais uma etapa do seu caminho para trilhar. O futuro começará a qualquer momento com as transformações pelas quais meu filho passou e agora e acompanhar o que ele fará com tudo isso!  O mundo ficou pequeno e o amor atravessou oceanos, fronteiras e temperaturas! Boa sorte meu filho e sabedoria! Caminhante faz seu caminho ao andar!

Rio de Janeiro, 12 de julho de 2016

Nathalia Leão Garcia 


ENVIO AO CÉU

             Meu querido amigo Israel!           Hoje lhe conto da emoção que reverbera no meu ser, com a leitura do Conto Olhos D´água...