quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

GRACILIANO RAMOS: A LITERATURA COMO ESPAÇO DO IMAGINÁRIO E DA CRÍTICA DA SOCIEDADE



 
O presente trabalho pretende discutir o enraizamento do Modernismo no Brasil e sua vertente Regionalista, segunda fase do Modernismo que se diferenciam através dos contrastes na forma de suas narrativas. Tomando como base de análise o livro Vidas Secas de Graciliano Ramos, discorremos sobre os aspectos da narrativa que representam a “Geração de 30” ou “Neo – Realista”.  O Regionalismo trouxe as ambiguidades entre tradição e inovação além de expor de forma crítica as mazelas de regiões desprestigiadas do nosso país com as estórias realistas das pessoas simples que habitavam os Nordeste e Minas Gerais através de uma fala áspera que reproduzia com tonalidades diversas a estética Naturalista do fim do séc. XIX e suas manifestações na sociedade dos anos 1930. Já o Neo-Realismo foi um movimento artístico do séc. XX, marcado por um idealismo de esquerda, influenciado pela doutrina de Karl Marx trazendo à tona as lutas de classes. No Brasil este movimento recuperou elementos Realistas e Naturalistas, adotando práticas modernistas, marxistas e da Psicanálise de Freud. A Literatura Neo Realista é representada na obra Graciliano Ramos que preserva o determinismo social e psíquico, a perspectiva imparcial e um olhar objetivo e também as comparações entre seres humanos e animais. Graciliano Ramos nasceu em 1892 numa cidade do interior de Alagoas, primogênito de 16 filhos numa família que vivia as agruras das secas no sertão nordestino, marcado pela violência e pela personalidade dura de seus pais, interessou-se desde cedo pela temática agreste, seus problemas sociais e a análise crítica das relações humanas. Teve uma boa educação que o instigou o amor pelas letras, trabalhou como jornalista, funcionário público, encarregado de educação, chegou a política como Prefeito da cidade de Palmeira dos índios em Alagoas, numa trajetória heterodoxa e que desafia as convenções vigentes. Por assumir a militância política contrária ao Governo Vargas, é preso em março de 1936 sendo acusado de conspiração e participação nas revoltas comunistas de 1935, dessa experiência ficam as impressões escritas em “Memórias do Cárcere” que foi adaptado para o cinema também. Mais tarde viaja pelo leste europeu e filia-se ao Partido Comunista.  Considerado como o escritor de maior expressão da Geração de 30, com a sua literatura que denunciava as desigualdades e as arbitrariedades dos “donos do poder”: governo, polícia, os proprietários de terras que representavam a classe mais prestigiada da sociedade e a sua opressão sobre o povo que não dominava a língua portuguesa padrão e por sua ignorância era facilmente controlado pelo Estado.
Vidas Secas escrita em 1938, em plena concordância com a Geração de 30 e o Neo-Realismo, aborda temas como injustiça social, miséria, fome e seca dos nordestinos na sua saga de retirantes, numa forma pessimista e determinista em 13 capítulos fragmentados que podem ser lidos em qualquer ordem, representando uma ruptura com a linearidade temporal numa linguagem seca e impessoal da narrativa em terceira pessoa, econômica suprime advérbios e adjetivos, trazendo embutida uma crítica social contundente.  O livro explana a realidade brutal e inexorável da vida de uma família de retirantes da seca com uma visão animalizada dos seus personagens Fabiano, Sinhá Vitória, os filhos mais velho e mais novo além da cadela Baleia que esta sim parece mais humana e traz a parte mais emocionante da estória que ganha enorme empatia do público com suas ideias, pensamentos e reflexões na descrição detalhada de sua morte trágica dolorosa e impactante.  A narrativa evidencia a opressão e a violência dos agentes do poder: o patrão-dono da propriedade, o governo autoritário, a polícia arbitrária que representa a lei e a seca que é um personagem onipotente. O pai Fabiano é bastante brutalizado numa alusão naturalista e dominado por vícios como a bebida e os jogos. Os personagens seguem numa vida acomodada, conformando-se com as condições impostas determinantes do seu destino, sem esperanças ou reflexões filosóficas acerca da sua realidade.
O Regionalismo da obra Vidas Secas nos incita a indagar acerca das modalidades de relações entre esses sistemas culturais regionais e a literatura brasileira em questão.  Pela leitura dos excertos no artigo de Arruda, Modernismo e Regionalismo no Brasil: entre inovação e tradição, vemos a existência de uma descentralização da cultura que” resultou da própria formação do país, uma vez que a dispersão geográfica da atividade econômica produziu a tendência ao caráter independente das regiões; à perda de dinamismo corresponde “um lento processo de atrofiamento” que se constitui a dinâmica mesma “de formação do que no século XIX viria a ser o sistema econômico do Nordeste brasileiro [...]. A estagnação da produção açucareira não criou a necessidade – como ocorreria nas Antilhas – de emigração do excedente da população livre formado pelo crescimento vegetativo desta” (Furtado, 1963, pp. 79-80).
”No Brasil não se deu o movimento da substituição da atividade dominante, ou do aprofundamento da regionalização de forma a estabelecer as bases futuras de outros países, como foi o caso da América espanhola.” (Idem, p. 104) “Essas distintas regiões viviam independentemente e tenderiam provavelmente a desenvolver-se, num regime de subsistência, sem vínculos de solidariedade econômica que as articulassem. (Idem, p. 96)
Na articulação entre discurso do Regionalismo com as suas tradições que traz um olhar crítico de resistência, vemos as contradições da sociedade da época marcada pela diversidade, os nuances da rebeldia e busca por inovações do Modernismo da primeira fase centrado no eixo urbano Rio-São Paulo. Deixo aqui o questionamento sobre como o determinismo das condições adversas somado a uma política educacional equivocada que preferiu manter uma aparência de hegemonia na identidade nacional. A estética do Regionalismo da Geração de 30 escancara a desigualdade no processo de modernização do Estado Brasileiro. Através da dificuldade no acesso ao letramento encontra-se uma forma de impedir a libertação e independência do povo que assim poderia manter-se dominado para sempre.  As raízes da submissão se encontram nessa ideia de largar os desvalidos relegados a própria sorte, independentes e desarticulados. O pensamento dominante infundido era de que forte mesmo é o que sobrevive às condições adversas e mantém-se acomodado e dominável o que vigora infelizmente até hoje, perpetuando a visão pessimista trágica e imutável dos deserdados, excluídos e sujeitos ao preconceito como explanado pelo personagem Fabiano nas suas rasas divagações.

Referências:

ARRUDA, M. A. N. Modernismo e regionalismo no Brasil: entre inovação e tradição. Tempo social. São Paulo, v. 23, n. 2, p. 191-212, 2011. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-20702011000200008&script=sci_abstract&tlng=pt.
Acesso em: 4 nov. 2019.

BRUNACCI, M. I. Graciliano Ramos: um escritor personagem. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. Biblioteca Virtual.


Escritores de Neo-Realismo. Disponível em: https://www.infoescola.com/literatura/escritores-do-neo-realismo/  Acesso em: 5 nov. 2019.
Realidade e representação no romance regionalista brasileiro: tradição e atualidade. Disponível em: http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/o_eixo_ea_roda/article/view/5908 Acesso em: 4 nov. 2019.

Resenha – Vidas Secas – Graciliano Ramos. Disponível em: https://atraidospelaleitura.wordpress.com/2018/06/15/resenha-vidas-secas-graciliano-ramos/   Acesso em: 4 nov. 2019.

Vidas Secas – Graciliano Ramos. Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=TlIGsVYCO0I  Acesso em: 4 nov. 2019.

Retirantes -  Cândido Portinari



quarta-feira, 29 de maio de 2019

HERETIC HERITAGE




Before they preach me on the cross
and set my body on fire,
I declare that I love heresy.

I crossed souls without light,
rough roads,
but in memory I only keep poetry.

My horizons are filled with blues,
I do not carry inert weights.
My deserts smell of sea air berry.

I have uncertain boundaries.
My address is tentative.
My roads are open.
I inhabit a wide territory.

I should react better to kicks,
give up my long repertoire
I was not at the bottom of the pit
My smile is broad and compulsory.

I composed badly drawn and wrong lines
With my illusory despair
that despite the irony of this section
You can use them as an accessory.

From you I inherited irreverence and rebellion
I do not make myself holy and blessed
With arrogance and stubbornness
I face the demons and I do not follow the march, sorry!

I'm going to search for the surprise of the day
in the hope that the self-taught vein
draw with impatience and irony
and make up for the pinch of sensible cruelty story.

My verse is volatile, voluble, enjoyable, and useless.
My direct verb exhorts devils and pagans
and absolves the sins of the futile world without glory.

My rebellious soul is anxious in essence
Do not deny it when I do not shut up and sweat
I accept that I am indomitable by resistance country.
So I endure the pains of loneliness discovery.

Nathalia Leão Garcia
May 29th, 2019.



segunda-feira, 8 de abril de 2019

HERANÇA HEREGE

Antes que me preguem na cruz
e ateiem fogo às minhas vestes,
declaro que adoro uma heresia.

Eu cruzei almas sem luz,
caminhos agrestes,
mas na memória só guardo poesia.         

Meus horizontes são repletos de azuis,
Não carrego pesos inertes.
Meus desertos tem cheiro de maresia.    

Possuo fronteiras incertas.
Meu endereço é provisório.
Minhas estradas estão abertas.
Habito um largo território.

Eu deveria reagir melhor às patadas,
lançar mão do meu largo repertório
Não estive ainda no fundo do poço
Meu sorriso é largo e compulsório.

Compus linhas mal traçadas e erradas
Com o meu desespero ilusório
que apesar da ironia desse troço
Você as adote como acessório.

De você herdei irreverência e rebeldia
Não me faço de santa nem beata
Com arrogância e teimosia
Enfrento os demônios e não sigo a passeata.

Vou a procura da surpresa do dia
na esperança de que a veia autodidata
desenhe com impaciência e ironia
e compense a pitada de crueldade sensata.

Meu verso é volátil, volúvel, desfrutável e inútil.
Meu verbo direto exorta demônios e pagãos
e absolve os pecados do mundo fútil.

Minha alma rebelde é ansiosa em essência
Não nega quando não me calo e solto palavrão
Aceito que sou indomável por resistência
Assim suporto as dores da solidão.

Nathalia Leão Garcia

Rio de Janeiro, 08 de abril de 2019.




sábado, 26 de janeiro de 2019

GRITO DE UMA INCONFORMISTA


                                                                     
Será que só existe a maldade na droga deste mundo?
Será que a podridão é tanta que não salva ninguém, é tudo imundo?
Será que só tem gente falida...
Pregando verdades mentirosas
Gente de mente apodrecida...
Onde até as suas virtudes são defeituosas?

Será que sou louca ou subversiva,
Por pensar deste modo?
Todos só me intitulam agressiva...
Será que só incomodo?

Entre loucos e esotéricos,
Tarados e filósofos obcecados,
Donos da verdade e histéricos...
Onde será que me enquadro em meio a esses psicados?

Será que essa era de conflitos
É o pivô de toda essa desumanização?
Fanáticos apegados a ritos
Que só geram confusão!

Não quero ser juiz de ninguém
Mais essa sujeira tem de acabar!
Quando é a paz vem?
Será que as coisas vão se modificar?

Será que a honestidade foi extinta?
Quem a possui é dono de um tesouro
Pintaram uma felicidade falsa com tinta.
Estará escondida no sumidouro?

Felicidade onde estarás?
Na fantasia?
Vou procura-la na poesia...

Apesar de tudo isso ainda resta uma esperança
De que a sensibilidade, a beleza,
A sinceridade e a pureza de uma criança,
O romantismo, o amor e a verdadeira felicidade,
Não sejam relíquias da minha fantasia.
Quero viver tudo isso com toda a intensidade.
Creio que todos poderão encontrar essa verdade,
Um dia...

Nathalia Leão Garcia (aos 14 anos)
Escrito no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1981. 




sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

MULHER SEM PARTIDO



Há o outro lado da moeda como sempre! 
Há mulheres de todos os tipos, não se pode generalizar. 
Absurdo definir que feminista tem que ser de esquerda!
Ser mulher não tem partido!
As causas são plurais e reais.
As vozes não podem ser caladas!
É violência não acolher os gritos de socorro!
Religiões e crenças não nos definem.
Vivemos uma grande confusão sobre papéis e identidades. 
Nós mulheres assumimos responsabilidades.
Cada uma dá conta da sua vida.
O que é bastante saudável. 
Mas é desumano não se condoer!
Ter empatia pela outra nos torna mais fortes.
Mas não abrimos mão de ser femininas, como eu.  
Ser responsável e se sustentar não exclui o cuidado e proteção, 
não no sentido paternalista, 
mas por carinho e atitude amorosa. 
Infelizmente acredito que se faça uma confusão. 
Ser independente financeiramente não é dispensar amor e cuidado. 
Eu gosto de ser tratada com respeito e carinho.
Isso não significa que seja frágil e dependente. 
Ninguém é metade, somos inteiras que transbordam.
Os discursos sexistas falam de expectativas não correspondidas. 
Taxar falas de ilegítimos e desqualificá-las é falta de respeito! 
Sinto muito, mas vou continuar a mandar minha “mensagem na garrafa”. 
Quem sabe o tal “ser” sensível não desperta. 
Enquanto isso, enfeito o meu jardim para atrair as borboletas!  



Nathalia Leão Garcia

Rio, 14 de dezembro de 2018.



terça-feira, 11 de dezembro de 2018

DISCUTINDO SOBRE A ANSIEDADE


Já abordei o transtorno de ansiedade em meu relato pessoal de sofrimento pelo qual sou acometida a ornitofobia que é uma forma de transtorno de ansiedade associada à fobia a pássaros.

Acho importante divulgar a ansiedade que acomete uma em cada 4 pessoas em todo o mundo indiscriminadamente independente de cor, religião, gênero ou status social.

Num estudo divulgado pela Revista ISTO É em 2012, das cidades pesquisadas, São Paulo foi a que apresentava os maiores índices de incidência de episódios de ansiedade.

As famílias, empresas, escolas e a sociedade em geral estão adoecendo de forma coletiva e todos são afetados pelas ondas da massa. Vende-se soluções farmacológicas eficazes muitas vezes, mas que não dão conta de todos os problemas. Necessário se faz buscar as raízes de tanta ansiedade que se confunde com os medos irracionais.

A ansiedade tem raízes profundas antropológicas, fazia parte das reações que nossos ancestrais manifestavam diante de ameaças como a possibilidade de um ataque animal ou a morte por frio extremo. Preocupar-se com esses eventos, mantinha o corpo em alerta , mais tenso, pressão elevada, maior bombeamento de sangue . Se o perigo se concretizasse, o corpo estava pronto para reagir. Se não, o sistema era desligado. Esse esquema ficou gravado no cérebro humano como uma programação genética de instinto e até hoje entra em ação em situações interpretadas como risco. Essas circunstâncias podem ser reais ou fictícias, resultado de mecanismos psíquicos não totalmente esclarecidos. O problema é que se esse estado de preocupação se torna crônico, caso da ansiedade generalizada, ou leva a crises espontâneas, como ataques de pânico, deixa de ser uma reação natural. Causa prejuízos à saúde e à vida social, afetiva e profissional. Tornando-se uma doença. É preciso despertar e procurar ajuda.
Dividir informações faz com que possamos nos conhecer e aprender a desativar o acionamento das bombas que a mente arma para nos auto sabotar.

Segue um estudo sobre transtornos de ansiedade.

Transtornos de Ansiedade

Todos os Transtornos de Ansiedade têm como manifestação principal um alto nível de ansiedade. Ansiedade é um estado emocional de apreensão, uma expectativa de que algo ruim aconteça, acompanhado por várias reações físicas e mentais desconfortáveis.

Os principais Transtornos de Ansiedade são: Síndrome do Pânico, Fobia Específica, Fobia Social, Estresse Pós-Traumático, Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Distúrbio de Ansiedade Generalizada.

É comum que haja comorbidade e assim uma pessoa pode apresentar sintomas de mais de um tipo de transtorno de ansiedade ao mesmo tempo e destes com outros problemas como depressão.

No geral, os transtornos de ansiedade respondem muito bem ao tratamento psicológico especializado.
Saiba um pouco sobre cada Transtorno de Ansiedade:


Estresse Pós Traumático:
Estado ansioso com expectativa recorrente de reviver uma experiência que tenha sido muito traumática. Por exemplo, depois de ter sido assaltado, ficar com medo de que ocorra de novo, ter medo de sair na rua, ter pesadelos, etc. Geralmente após um evento traumático a ansiedade diminui logo no primeiro mês sem maiores consequências. Porém, em alguns casos, os sintomas  persistem por mais tempo ou reaparecem depois de um tempo, levando a um estado denominado como Estresse Pós Traumático.

Distúrbio de Ansiedade Generalizada:
Estado de ansiedade e preocupação excessiva sobre diversas coisas da vida. Este estado aparece frequentemente e se acompanha de alguns dos seguintes sintomas: irritabilidade, dificuldade em concentrar-se, inquietação, fadiga e humor deprimido.

Síndrome do Pânico:
A Síndrome do Pânico é caracterizada pela ocorrência de freqüentes e inesperados ataques de pânico. Os ataques de pânico, ou crises, consistem em períodos de intensa ansiedade e são acompanhados de alguns sintomas específicos como taquicardia, perda do foco visual, dificuldade de respirar, sensação de irrealidade, etc.

Fobia Simples:
Medo irracional relacionada a um objeto ou situação específico. Na presença do estímulo fóbico a pessoa apresenta uma forte reação de ansiedade, podendo chegar a ter um ataque de pânico. Por exemplo a pessoa pode ter fobia de sangue, de animais, de altura, de elevador, de lugares fechados ou abertos, fobia de dirigir, etc. Há muitas formas possíveis de fobia, visto que o estímulo fóbico assume um lugar substituto para os reais motivos de ansiedade da pessoa. O motivo original vai ser descoberto na terapia.

Fobia Social:
Ansiedade intensa e persistente relacionada a uma situação social. Pode aparecer ligado a situações de desempenho em público ou em situações de interação social. A pessoa pode temer, por exemplo, que os outros percebam seu "nervosismo" pelo seu tremor, suor, rubor na face, alteração da voz, etc. Pode levar à evitarmos situações sociais e um certo sofrimento antecipado. A pessoa pode também, por exemplo, evitar comer, beber ou escrever em público com medo de que percebam o tremor em suas mãos. 

Transtorno Obsessivo-Compulsivo:
Estado em que se apresentam obsessões ou compulsões repetidamente, causando grande sofrimento à pessoa. Obsessões são pensamentos, idéias ou imagens que invadem a consciência da pessoa. Há vários exemplos como dúvidas que sempre retornam (se fechou o gás, se fechou a porta, etc.), fantasias de querer fazer algo que considera errado (machucar alguém, xingar, etc.), entre vários outros.
As compulsões são atos repetitivos que tem como função tentar aliviar a ansiedade trazida pelas obsessões. Assim, a pessoa pode lavar a mão muitas vezes para tentar aliviar uma idéia recorrente de que está sujo, ou verificar muitas vezes se uma porta está fechada, fazer contas para afastar algum pensamento, arrumar as coisas, repetir atos, etc.

Uma nota para Reflexão:
O que é normal e o que não é normal em nossa vida mental?

É importante notar que todos nós apresentamos alguns comportamentos "estranhos" uma vez ou outra. A vida psicológica normalmente é cheia de estados emocionais variados, de transições e crises. Todos nós temos alguns medos ilógicos, algumas idéias intrusas em nossa consciência e estados de ansiedade mais intensos.

O que caracteriza um estado como patológico é quando estas situações dominam a nossa vida mental, quando o sofrimento emocional (ansiedade, desânimo, etc.) passa a ocupar o primeiro plano em nossas vidas e nos impede de viver outras experiências. Na psicopatologia, ocorre certa perda de liberdade e ficamos paralisados em modos estereotipados de funcionamento, sofrendo.

Nestas situações necessitamos de ajuda psicológica. A psicoterapia nos ajuda a sair deste estado de paralisia, ajudando a restaurar nossa capacidade de prosseguir construindo nossa vida e respondendo de modo criativo aos desafios.


Por Artur Scarpato , Psicólogo Clínico (PUC SP)

Como se livrar da ansiedade

1- Respire fundo, lenta e compassadamente pelo maior tempo que você for capaz, pois isto ajuda a desacelerar fisiologicamente o cérebro e por conseqüência a mente.

2- Entenda que quando um problema novo se configura a sua frente, a solução não está na sua mente, não está no seu pensamento e sim no fato em si. Quando for possível, olhe para o novo, procure entendê-lo, aumente as suas informações e seu conhecimento sobre ele. Não busque referências pessoais anteriores, pois isto aumentará a sua ansiedade. Se não for possível olhar para o problema (por exemplo,  numa entrevista de emprego), procure não pensar nele, tente “distrair” a sua mente com outra coisa, brigue( BRIGUE?) com ela para não pensar na entrevista e em suas conseqüências.

3- Aceite a falta de controle, abra mão da prepotência da sua mente, e entenda que não somos deuses superpoderosos que tudo podemos controlar. Uma parte de nossa vida tem que entregar a Deus, ao destino, à sorte e... Seja o que Deus quiser...

4- Problemas e novidades se resolvem com ação e não com pensamento, é preciso fazer o melhor que está a nosso alcance, focado, ligado no real. O que está além do nosso melhor esforço não podemos controlar.

5- Aceitar a possibilidade de perder, não querer ganhar a qualquer custo, pois isto acelera a mente e aumenta e muito a chance de derrota.

6- Aceite conviver com a insegurança quando ela surgir a sua frente. Não queira se livrar dela. Não tenha pressa. Quanto mais você aceitar conviver com a insegurança, mais calmamente ela irá embora e mais a sua mente se acalmará. Quanto mais você tentar se livrar dela, mais ela se tornará ansiedade.

7- Não se deixar enganar pela mente. Quando ela ficar buzinando internamente que o pior vai acontecer, usar a palavra mágica ( Não seria melhor “ Frase Mágica” ou Frases Mágicas” ?): “ Seja o que Deus quiser...” “ Foda-se...”














Resumindo: mente acelerada é mente desequilibrada. Para livrar-nos da ansiedade, devemos aprender a escapar do domínio e desacelerar a nossa mente.
Por  Dr. Isaac Ibraim, Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta- SP .


Ornitofobia 

O nome parece pomposo e altivo, mascarando o seu real e prosaico significado: o medo anormal e irracional de aves. Confesso que sofro deste transtorno que se traduz na extrema angústia e medo de perder o controle. Senti-me encorajada a falar sobre este delicado assunto após assistir com muita compaixão e identificação ao relato da cantora Luiza Possi no programa Encontros com a Fátima Bernardes confidenciando sobre este ridículo calcanhar de Aquiles!

Por este bizarro medo, desde a mais tenra idade sempre fui alvo de bullying que naquela época era apenas escárnio, chacota e encarnação mesmo!

Uma explicação para tão estranho temor pode ter origem no fato de que a minha mãe assistiu ao filme Os Pássaros de Alfred Hitchcock quando estava grávida de mim. Relembrando o filme do mais puro terror que aborda a fobia discorre sobre a história de um casal que luta pela vida desesperadamente contra a força mortal de aves que protagonizam uma série de ataques aos cidadãos indefesos da cidade de Bodega Bay na Califórnia EUA.

Diga-se de passagem, este não é um filme apropriado para mulheres especialmente grávidas, porém mamãe foi uma mulher singular durante toda a sua vida. Era um misto de libertária, behaviorista, neofascista e treinadora do BOPE na educação das suas filhas, dentre as quais eu sou a primogênita.

Os traumas que lembro com os pássaros são posteriores à ornitofobia instaurada. Aos meus 15 anos minha mãe fez uma de suas experiências terapêuticas comportamentais com inspiração behaviorista: desafiou-me a entrar num viveiro de pássaros ornamentais do porte de galinhas, galos e perus no sítio de um amigo da família a quem eu gostava de impressionar pela bravura. Eu tinha uma reputação a zelar, era a mais velha de uma tropa de 5 crianças e era tida como intrépida e destemida, pois havia matado uma cobra coral a tiros de espingarda para proteger os petizes! Pois muito que bem, entrei no tal covil das feras que era fechado e diante da platéia incrédula, fechei os olhos e “ saí fora do meu corpo” enfrentando o medo. Aos calafrios vertiginosos sentia o bater das asas dos pássaros em fuga, roçando na minha pele, meu coração saltando pela boca e eis que eles sumiram sem deixar rastros! Ufa! Sobrevivi a esta prova de fogo!

Anos mais tarde, já na Faculdade de Psicologia na UFRJ, fazia estágio em Psicofarmacologia no Instituto de Psiquiatria que consistia em observar os pacientes em seu horário de lazer no pátio da clínica e eis que surgem do nada um pequeno exército de pombos, patos, gansos, marrecos, pelicanos , flamingos, galinhas, perús ... e derivados alegremente interagindo com os doentes em recreio! Foi o pior mico da minha vida, não consegui controlar a minha reação de pavor, saí correndo aos gritos diante dos olhares de pena dos internos! Soube depois que o convívio com os emplumados fazia parte da terapêutica dos internos. Estava acabada a minha carreira como Psicóloga depois deste vexame no hospital psiquiátrico, mas não desisti e ainda tentei estagiar no Pinel!

Outro episódio memorável ocorreu alguns meses depois, quando atravessava a Praça XV rumo às Barcas na companhia de uma amiga que estudava Medicina na UFF em Niterói: um pombo preto cismou de pousar na minha cabeça e se aninhar nas minhas longas madeixas! Desmaiei como efeito e acordei sendo socorrida pela minha amiga e rodeada de uma multidão de curiosos!

Desde pequena provoquei mudança nos hábitos alimentares da família porque não aceitava visitar aviários nem tampouco comer aves de qualquer espécie! Costumava fazer discursos a favor das pobres criaturas para convencer outras pessoas a excluir carne de aves do cardápio! Tornei-me macrobiótica aos 18 anos para evitar os encontros desagradáveis com as tais criaturas!

O meu problema maior é deflagrado quando as aves levantam voo, a simples lembrança das penas das asas me arrepia toda e tenho vertigens!

Há alguns anos venho controlando os ataques de ansiedade com meditação e auto hipnose. São técnicas para lidar com os desagradáveis sintomas.

Teorias apontam o medo como um fator de sobrevivência que nos preserva de perigos de morte, como no experimento com ratos que ficaram na mesma caixa com uma cobra, os que sobreviveram não a enfrentaram ficando parados. Na vida em geral, quando o medo é exacerbado nos paralisa e impede de viver. O excesso de controle nos isola do convívio que nos amedronta e nos impõe um cárcere estéril e asséptico.

A cura passa pela busca do entendimento e elaboração dos significados simbólicos do sofrimento e dos sintomas desenvolvidos, bem como a elucidação dos ganhos secundários obtidos desses.

Por Nathalia Leão Garcia




MEMÓRIAS DO SUBTERRÂNEO

Talvez não me reste nada além de manter a mentira da felicidade fácil, das juras de amor mais deslavadas. Desavergonhada farsante. É b...